Diretrizes da Sociedade Brasileira de Anestesia e Sedação em Odontologia

1) INTRODUÇÃO

A preocupação crescente com o controle da dor e da ansiedade em Odontologia, tem levado a um aumento evidente do uso das mais variadas técnicas de anestesia e sedação na prática odontológica. No Brasil, um número cada vez maior de cirurgiões-dentistas tem se dedicado ao estudo, à prática e ao ensino da Sedação em Odontologia.

Neste contexto, a Sociedade Brasileira de Anestesia e Sedação em Odontologia nasce da necessidade de se estabelecer diretrizes para um adequado desenvolvimento do Estudo, da Prática e o do Ensino da Sedação em Odontologia, de modo a assegurar que a Sedação em Odontologia no Brasil seja conduzida por cirurgiões dentistas devidamente treinados e capacitados nos seus mais variados níveis.

A elaboração deste documento inicial, que expressa a filosofia da SOBRASO, baseou-se em adaptações de diretrizes e publicações internacionais, de países como o Chile e Estados Unidos, em especial da ADA (American Dental Association), sociedade extremamente respeitada no cenário internacional e com longa e sedimentada experiência no tema.

O controle da dor e ansiedade envolve recursos farmacológicos e ou não farmacológicos durante o pré, trans e pós-operatório a fim de oferecer um tratamento odontológico seguro e eficaz. Sendo assim, o objetivo destas diretrizes aqui apresentadas é oferecer uma orientação para o treinamento e prática do controle de dor e ansiedade, com sedação, em todos os níveis do ensino odontológico, desde a graduação, especialização e/ou pós-graduação nas diferentes especialidades, respeitando o nível de complexidade de cada fase da formação.

Por essas diretrizes, enfatizamos a importância e a necessidade de se ter por parte dos profissionais da odontologia, um elevado nível de competência no uso de técnicas de controle de dor e ansiedade. Essa competência será suficientemente alcançada por meio da combinação do conhecimento profundo da ciência aliada à prática clínica.

O propósito dessas diretrizes é oferecer direção e orientação aos profissionais da Odontologia envolvidos no Ensino e aos interessados em desenvolver conhecimento e habilidades necessárias para a prática da anestesia local e sedação em Odontologia de forma segura minimizando os efeitos adversos reduzindo ao máximo o risco de intercorrências e tendo assegurada capacidade técnica para conduzi-las quando presentes. Para tanto, tais diretrizes são fundamentais e deverão ser consideradas no Ensino da Anestesia e Sedação em todos os níveis, desde os objetivos, pré-requisitos para o treinamento, conteúdo didático, experiência clínica, corpo docente até mesmo orientações para condição mínima das instalações onde essa prática será exercida.

Tais diretrizes são dinâmicas havendo possibilidade de inovação e melhoria desde que cientificamente comprovadas.

O presente documento visa estabelecer as diretrizes para a segurança dos procedimentos para indução da Sedação em ambiente odontológico ambulatorial.

2) OS NÍVEIS DE SEDAÇÃO

SEDAÇÃO MÍNIMA é uma leve depressão do nível da consciência induzida por fármacos, no qual a capacidade respiratória é mantida de forma independente e contínua e o paciente permanece responsivo aos estímulos táteis e comando verbal. Embora a função cognitiva e a coordenação motora possam estar levemente prejudicadas, as funções ventilatória e cardiovascular não são afetadas.

SEDAÇÃO MODERADA/ANALGESIA é um estado de depressão da consciência, obtido com o uso de medicamentos, no qual o paciente responde ao estímulo verbal isolado ou acompanhado de estímulo tátil. Não são necessárias intervenções para manter a via aérea permeável, a ventilação espontânea é suficiente e a função cardiovascular geralmente é mantida adequada.

SEDAÇÃO PROFUNDA/ ANALGESIA é uma depressão da consciência induzida por medicamentos, e nela o paciente dificilmente é despertado por comandos verbais, mas responde a estímulos dolorosos. A ventilação espontânea pode estar comprometida e ser insuficiente. Pode ocorrer a necessidade de assistência para a manutenção da via aérea permeável. A função cardiovascular geralmente é mantida. As respostas são individuais.

3) O ENSINO NOS DIVERSOS NÍVEIS DE FORMAÇÃO:

– Graduação : Durante a graduação é importante enfatizar o ensino da técnica de sedação mínima com fármacos pela via oral e o domínio das diversas técnicas de anestesia local.

O estudo das emergências médicas e o BLS com carga horária adequada devem fazer parte da disciplina.

-Pós graduação: No ensino de pós-graduação, é possível aprofundar o ensino da sedação com o uso de uma ou mais vias de administração de fármacos, sozinho ou associadas, que busquem alcançar níveis maiores que a sedação mínima.
O conteúdo estudado na pós-graduação em sedação deverá contemplar:

a) Aspectos históricos, fisiológicos e psicológicos do controle de dor e ansiedade.

b) Avaliação e seleção do paciente. História médica, exame físico e perfil psicológico

c) Aspectos fisiológicos e psicológicos da dor e da ansiedade.

d) Estágios de indução de depressão do sistema nervoso central. Níveis conscientes e inconscientes.

e) Revisão da anatomia e fisiologia do sistema nervoso central, sistema respiratório e cardiovascular.

f) Farmacologia dos agentes utilizados na sedação incluindo interações medicamentosas, efeitos colaterais e paradoxais.

g) Indicações e contra-indicações gerais para uso da sedação.

h) Critérios de seleção de pacientes para uso da sedação em odontologia. O paciente, o procedimento, a equipe, o ambiente.

i) Vias de administração de drogas, vantagens, desvantagens, riscos, benefícios, indicações, fundamentos técnicos, descrição, manuseio e uso de equipamentos necessários para a aplicação de cada técnica;

j) Monitorização do paciente durante a sedação, equipamentos de monitorização, leitura / interpretação, observação de parâmetros clínicos com particular atenção aos sinais vitais e reflexos relacionados a vias aéreas, ventilação, oxigenação e consciência ( seguindo os guidelines internacionais).

k) Registro/ Prontuário. História medica, exame físico, Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, registro durante a anestesia e sedação, registro de doses e drogas administradas incluindo anestésicos locais e todos os parâmetros fisiológicos registrados.

l) Prevenção, reconhecimento e procedimentos frente a complicações.

m) Administração de anestesia local associada à sedação,

n) Potenciais riscos à saúde dos agentes farmacológicos, e cuidados de limitação da exposição ocupacional.

o) Estudo do abuso dos medicamentos de ação central

p) Critérios de Alta em Sedação Ambulatorial

q) Emergências médicas e manuseio das vias aéreas com prática em manequim. Duração mínima deste módulo: 24 horas

r) Os participantes devem apresentar certificado de Curso de Suporte Básico de Vida, mantendo as Revalidações.

s) Revisão/ Discussão de protocolos internacionais (ADA – American Dental Association , ADSA – American Dental Society of Anesthesiology e outros) para a prática segura da Sedação em Odontologia.

t) Ao final do curso, o aluno será submetido a avaliação para certificação final para o tipo de sedação proposto, e deverá ter a nota mínima de 7.

u) Nos cursos em que sejam abordadas exclusivamente vias não tituláveis de administração de fármacos, cada aluno deverá participar ativamente em pelo menos 10 casos de sedação nestas vias, sendo ao menos 2 no modelo cirurgião sedacionista único.

v) Nos cursos em que sejam abordadas vias tituláveis de administração de fármacos, cada aluno deverá participar ativamente em pelo menos 20 casos de sedação em técnicas tituláveis, sendo ao menos 4 destas no modelo cirurgião sedacionista único.
Obs 1: Para submeter-se a cursos que abordem vias tituláveis, o aluno já deverá estar previamente treinado no uso de vias não tituláveis.
Obs 2: Apesar de ser técnica titulável, Cursos de Habilitação em Sedação/Analgesia Inalatória com Óxido Nitroso e Oxigênio seguem resolução prévia específica do Conselho Federal de Odontologia.

w) A duração dos cursos de sedação devem ser compatíveis com as técnicas ensinadas e nunca com duração inferior às 96 horas, já definidas para a habilitação no uso do oxido nitroso.

x) Os Membros da SOBRASO deverão se submeter a uma atualização regular oferecida pela própria Sociedade, a cada 02 anos, com carga horária de 16 horas.

y) O treinamento do cirurgião dentista em sedação deverá acontecer de forma criteriosa, gradual e continuada, alcançado maiores níveis de complexidade (vias, associações de vias ou drogas, níveis mais avançados de sedação) apenas e à medida que desenvolve o seu conhecimento, treinamento e habilidades para a realização com segurança de cada passo, inclusive para manejo das eventuais intercorrências.

Com o avançar das discussões, estas diretrizes poderão e deverão sofrer alterações, adições, e como já exposto, surgirão orientações complementares e mais detalhadas sobre os mais variados tópicos relacionados especialmente com a Prática Segura e o Ensino da Sedação em Odontologia nas suas mais variadas especialidades.